Se tudo der errado, pressione CTRL + Z.

Depois que me conectei nas redes de relacionamento nunca mais fui a bares. O bate-papo informal rola solto, porém é informático. E que saudades das cartas. Sempre gostei de cheirar as cartas, guardar o envelope vazio, com o selo bonito colado. E o carteiro correndo com todos os cachorros da vizinhança atrás dele, latindo? Que saudade! Mas não mando mais cartas, nem recebo. Telegrama então, nem pensar. Só tuíts, torpedos, etc. 

Me acham inteligente, culto. Rarará ! Não pesquiso mais na biblioteca. Gosto mesmo é de gugar! Criaram um novo método de formulação de teses, uma nova metodologia de pesquisa ultra-avançada chamada copy&paste. É fácil ser nerd. É fácil ser CDF. As citações que eram características de erudição agora são copiadas daqui pra lá carregando as mesmas palavras, mas cadê o sentido? Que saudades do meu tio e suas frases prontas. Mas todas eram da cabeça dele ou ditas por Rui Barbosa, Castro Alves. E por falar em família até minha avó parou de trocar receitas com a comadre. Ela acha tudo no receitaslegais.com.

Lembra-se das fitas K-7? Cacete! Desapareceram todas. E eu que copiava e trocava com a turma do Maletta. Ai, que saudade do chiado gostoso do meu disquinho do Gilberto Gil. Tudo está disponível em quantidades astronômicas! Morra MP3! 

Fizeram agora um negócio que chamam de curso à distância. Pra quê? Isso era bom quando eu morava longe da escola e voltava da aula proseando com meus colegas, paquerando a menina da sala 4. Essas coisas afastaram as pessoas. Cadê os amigos que fizemos na faculdade? Sumiram todos. Ninguém me liga. No meu aniversário não recebi nenhum presente, mas meu blog tá cheio de depoimentos e scraps.

Camões já dizia que “navegar é preciso”, mas aí veio Gil baianamente e  disse “desde que seja no info-mar, meu rei”. 

Até a roça foi usurpada, ou melhor, modernizada. Lembra dos mascates que vendiam redes? Sumiram! Agora eles estão na rede. Não se contam mais histórias ao pé da fogueira. Tudo gira em torno da tela no meio  da sala. Tamanho mais que nunca é documento sim, quer ver? Qual o tamanho do seu HD?

 Para arranjar emprego continua a sacanagem do Q.I. – quociente informático. O amor não está no ar,  está na rede. O mercadinho da esquina não mais está lá. Cadê seu Zé das Couves, que me vendia fiado? Acabaram com a feira livre. Fizeram o mercado livre e pra comprar tenho que ter um login, quando antes eu só precisava de dinheiro. Como não diria Chacrinha: Quem não se comunica não está online! Ai! O ratinho da cozinha da vovó está na mesinha do escritório.  Minha coleção de selos e a de tampinhas de refrigerante perdeu o valor. Nunca mais tirei fotos, pois não há onde revelar os filmes. Original, nem cerveja. Isso é coisa que não existe. As cópias são sempre perfeitas. Até meu cigarrinho perdeu o charme. Inventaram um que não solta fumaça. Não tenho caderno de rascunhos porque criei uma pasta chamada vários, coloco tudo lá, texto, contexto, pretexto.  

As siglas dominaram o mundo das palavras. HD, MSN, WWW, HTTP, RAM, GB, PDF, AVI, JPEG, XL, PPT. Para cada cabeça uma sentença e para cada sentença uma sigla. Mas também tem o lado bom. Nunca pensei que jogar cartas fosse tão divertido.  Posso ganhar e perder de mim mesmo! Paciência. Mas me canso e penso: quando tudo isso der errado, ufa, pressiono Control+Z.