Terça e Quinta

 

Terça Relato de uma visita não programada a um lugar inesquecível

Terça-feira gorda e Sabará é a onda da vez. Nem viagem nem gandaia nem folia. Descanso. Folga. Queríamos tranquilidade e paz. Sabarabuçu pra mim parece nome de peixe. Peixe grande e comido por tapuias. Mas nem tudo é o que parece. Caeté, Nova Lima, Rio das Velhas e eu que vou me casar conheci Santo Antonio, o das Roças Grandes. Fernão Dias e outros já passaram e exploraram muito essa região. Eu não. Sempre morei perto mas sem conhecer. Essa vida nos apronta cada uma. Como professor, nos feriados e fins de semana só quero nem saber de descansar. Palestras, estudos,  pensar então nem pensar! Mas na terça-feira gorda,  Mardi Gras se preferirem, tudo pode acontecer. E aconteceu. 

Que subida longa, que estrada apertada. A especulação imobiliária tomando conta de tudo. Crianças correndo peladas atrás de cachorros sarnentos. Uma bicicleta sem rodas e o garotinho se imaginando numa moto sonoriza seus sentimentos num zunido constante e convincente. Pelo caminho os postes tortos de madeira vão nos indicando que o destino está próximo. Veremos.

Em dado momento nos perdemos e em seguida dois meninos de pouca idade mostram como chegar:

– O sinhô sobe, sobe, sobe. Aí lá em cima tem uma casa com uma janela. Aí o sinhô desce um tiquin pro lado e depois um morrão. Aí chegou!

Fenomenal! Que simplicidade. 

No caminho há um castelinho construído não se sabe pra quê. Fim da rua. Fim da linha? Um portão tem a bandeira nacional em cores vivas e do outro lado uma descidinha forte e uma ponte escondida entre folhas mostra que há algo mais. Decido pela descida e entro por um caminho sem volta.  Dèja vu. Essa estradinha e essa sombra sobre nós, esse farfalhar constante e ao longe um trinado de um pássaro desconhecido. Mais ao fundo um cantarolar emepebeano me lembra coisas que não saberia descrever, mas sei que já senti.

Alguns carros na pracinha arredondada nos mostra que há mais visitantes no local. Descemos e vemos uma imagem surreal: uma construção rústica encravada na montanha, descansa entre árvores!

Mas parece ser apenas mais um restaurante de comida mineira, o que é muito comum na região. À entrada, uma senhora num quiosque com seus quitutes, trufas e licores nos oferece um sorriso contagiante e sabor. Um pouco à frente um grupo de mulheres assentadas à uma mesa caipira conversam animadamente. De um lado algumas cadeiras vazias, de outro várias mesas com senhoras de fino trato e um casal aí nos seus bem vividos 60 anos almoça calmamente. Ao fundo um fogão à lenha com uma mesa repleta dos mais saborosos pratos dessas bandas de cá. 

Vamos entrando e ao lado esquerdo podemos ver e ouvir um senhor (seria Toquinho?) tocando um violão e desfiando uma música brasileira de qualidade inenarrável. Há ainda um piano, várias fotos e cartazes com frases bem humoradas e de belíssimo gosto espalhados por todo lugar. 

Vem o proprietário. Cara de homem sério, sisudo, nos cumprimenta e diz que vai buscar o material pra nos apresentar ao lugar. Demora uns longos minutos que nem pudemos perceber, embebidos pela aura daquele lugar simples e cativante. Pessoas tranquilas, cheiro de comida, cheiro de mato, música.

Chega o senhor  (que logo me repreende. Não gosta de pompas no tratamento, embora nos trate com toda a atenção), traz nas mãos um laptop e um maço de papel:

  • Ai meu Deus, lá vem esse moço me vender um projeto e me convencer a trazer uma excursão da escola pra ele faturar uns trocados! Penso mineiramente.

O nome dele é Angelo (muito bom sinal) e nos leva à uma pracinha num canto do restaurante. A praça nada mais é que um cantinho quieto e arborizado com poucas mesas e cadeiras e com uma vista muito bonita de parte da propriedade. 

 

Nos faz assentar e começa a desfiar um novelo sem fim de informações sobre o que é o Quinta dos Cristais. Angelo o faz de uma forma tão didática, tão profissional e ao mesmo tempo apaixonada que nos perdemos com a hora. Pouco tempo depois nos mudamos para uma sala aberta mais aos fundos do restaurante onde podemos ver todo o projeto no laptop. Nos são mostrados vídeos, fotos, dados técnicos e textos com toda a história da Quinta e também de Sabarabuçu, um mito da época das grandes caçadas ao ouro pelo interior mineiro. Angelo gosta do que faz, delicia-se nas explicações. Temos a certeza de  que com qualquer outra pessoa em qualquer outro lugar isso seria monótono demais para dispender tanto tempo. Já estamos aqui há mais de duas horas. Nem parece. Passou os últimos dez anos dedicado à uma pesquisa complexa e importante (exceto para os políticos de Sabará). Conta-nos histórias da época da escravidão, narra episódios de excursões escolares e os casos atípicos, e, ao fim de tudo nos declama poemas de Castro Alves. Narra com emoção cativante detalhes das vidas dos escravos, dos índios, do sofrimento dos colonos, fala da pirâmide que construiu no alto da serra e do povo da região. Que ser humano, que sabedoria! Convincente na sua retórica condizente com sua postura de educador-sociólogo-ecologista-ativista-dono-de-restaurante. Dificil descrever a maestria com que nos repassa dados geológicos, astronômicos, históricos, antropológicos e biológicos. Mais dificil ainda descrever a paixão desse Senhor ( com S maiúsculo) dedicado a causas por muitos esquecidas ou ignoradas. Ecologia, cidadania, educação, história, honra e respeito mútuo nos são demonstrados em cada detalhe da conversa ( já dura mais de três horas). Nos emocionamos com a declamação de 

Caminheiro que passas pela estrada,
Seguindo pelo rumo do sertão,” (…)

enquanto saboreamos trufas e um cafezinho bem mineiro. 

Por fim decidimos ir embora. Comentamos com Ângelo que voltaremos tão breve quanto casaremos. Qual surpresa temos quando ele busca nos fundos do restaurante uma sanfona e ali no meio de todas as senhoras de estirpe, dos clientes abastados, dos funcionários do restaurante, do mato, da natureza começa a tocar à nossa frente a Marcha Nupcial. Que homenagem, que emoção, que Terça-feira gorda!

Terça-feira gorda, dia perdido, dia de dormir, não pensar em nada, relaxar e esquecer dos problemas do mundo. Não essa.  Hoje foi dia de conhecer lugares, emoções esquecidas, pessoas humanas, conhecer um anjo.