O bêbado e o burro

Celinho vivia com os pais em Venda Nova. O menino era terrivel. Celinho adorava maltratar os bichos. Ora chutava o cachorro, ora espancava o gato. A mãe, mulher simples e de bons modos gostava de educar o filho com os costumes do interior. Batia no menino com vara e espada-de-são-jorge. Celinho aprendeu a correr da mãe, mas não do pai. O pai, o velho João Batista também corrigia, mas quando pegava quase matava Celinho de tanto bater.

Como na maioria dos bairros da cidade, há vizinhança havia muitos cachorros de rua. Celinho atraía os gatos e os espancava, amarrava bombinhas no rabo dos cachorros. Gostava de pegar tijolo e amarrar nas costas das galinhas para que o bichinho pudesse carregar. Como o peso era terrivelmente acima da capacidade do bicho, as galinhas caíam. Celinho batia nos bichos e gritava. Depois os bichos morriam de maus tratos.

Um dia o velho João Batista marcou de ir à casa de um amigo matar um carneiro para o Natal. Celinho foi junto. Foi triste ver o carneiro ajoelhado, sem gemer ou gritar encostar o pescoço na lamina aguda da faca de João Batista somente esperando pelo corte final. Mais triste ainda foi ver Celinho assistir a tudo de perto. Não queria perder nada. Após a morte do carneiro levaram carne pra casa e Celinho, convicto de sua importância, vangloriava-se contando a história aos amigos da escola. 

O velho João Batista bebia muito e sempre voltava dos bares dirigindo. Certo dia, após mais uma bebedeira João chegou em casa, espancou Celinho, brigou com a mulher e, dirigindo alucinadamente, atropelou um burro. O bicho pastava à beira da rua e João passou por cima ao invadir a contramão.

Ao saber do acontecido, Celinho correu rua abaixo para ver se o pai estava bem. Quando chegou já havia muita gente em volta do carro e do burro. Todos pensavam em socorrer João Batista. Celinho se aproximou e viu que o pai estava ferido, mas não parecia mal. Apenas batera a cabeça no vidro do carro e tinha um corte fino no braço. Os bombeiros vieram socorrer e os vizinhos ajudaram a remover o carro da beira da rua.

O burro estava agonizante deitado, com as patas traseiras quebradas e somente o pescoço em pé. Ninguém pensava no burro, na dor que o animal estaria sentindo. Alguns até mesmo apontavam  o animal como o culpado pelo acidente. João foi levado ao hospital e os vizinhos voltaram pra casa. Todos, exceto Celinho. O menino ficou ali, à beira da rua observando o sofrimento do burro que, a cada momento enfraquecia mais. O burro finalmente abaixou a cabeça deixando-a recostada no meio-fio. Celinho a tudo observava, imóvel. Aos poucos dos olhos do burro começaram a rolar grossas lágrimas misturadas com sangue. Celinho, assustou-se. Virou o rosto. Não queria ver aquilo. O burro respirava pesadamente. Celinho sentiu dentro de si um sentimento de inutilidade que jamais tinha lhe ocorrido. Todos preocupados com o bêbado João Batista, nem ligavam para o burro.  Celinho sabia que o pai era o culpado e o pobre burro, que a maior parte do dia arrastava-se morro acima puxando uma carroça pesada com dois homens em cima, desfalecia em sofrimento. Pobre burro. Pobre Celinho. 

Aos poucos aquele sentimento de inutilidade invadiu tão completamente o menino que ele se deitou também com a cabeça ao meio-fio e abraçado com o burro moribundo se sentiu unido ao animal como se mesma coisa fossem. Celinho chorava, o burro chorava. Celinho dormiu. O burro morreu.

Mas Celinho não apercebido da morte do burro acordou com os gritos dos meninos que jogavam bola ali perto. O burro estava inerte. O pelo mal tratado, as patas ferradas, duas quebradas. Nas costas uma marca pelada causada pelos arranjos da carroça. Celinho se comoveu ainda mais uma vez e levantou-se decidido a enterrar o burro, custasse o que custasse.

3 dias haviam se passado. O pai já estava em casa, novamente bêbado. Celinho sabia que não podia contar com ele. Todos os vizinhos ignoraram os pedidos de ajuda do menino, a mãe disse que era besteira. O menino estava sozinho em sua empreitada.

Celinho ficou ainda mais sentido quando voltou ao local do acidente e viu que o burro jazia infestado em moscas e vermes. Pobre bicho.

Com a ajuda de alguns meninos da rua de cima Celinho conseguiu arrastar o corpo sofrido e fétido do burro para um lote vago. Ali, debaixo de entulho e terra estava agora descansando o corpo da besta-bicho, do pobre burro. Em casa, escondido e envergonhado debaixo do tanque de roupa suja jazia Celinho, a besta-homem, pobre-menino, massacrado por todo o sofrimento do burro, mas que agora era todo seu.